Por que aprendemos historia?
Como amante de historia, não é raro encontrar pessoas que acham aprender sobre história uma perda de tempo. Acham que é uma área sem futuro, que não faz sentido estudar sobre gente que já morreu, que passado é passado e entre outras coisas. O que no fundo, só reflete a falta de valorização da historia pela sociedade moderna. Quando entras na escola, dizem que tens que ser médico, advogado, engenheiro, mais recentemente programador, enquanto que a história é sempre colocada num baú de indiferença. Embora a sociedade precise de médicos e engenheiros, o historiador não é menos competente que os outros só porque escolheu outra área do conhecimento. Na verdade, limitar o ser humano a apenas uma área do conhecimento, é vergonhoso e ignora o potencial intelectual de cada ser humano. Um médico que não conhece a história da medicina nunca poderá entender o seu papel por completo, assim como um engenheiro que não estuda as técnicas usadas no passado não irá entender todo o processo de evolução técnica até aos dias de hoje. A história é muito mais que Descobrimentos, Revolução Francesa, Segunda Guerra Mundial, etc... História é uma ciência, uma ferramenta para entendermos o passado e a evolução humana na Terra.
Num contexto escolar, historia nem sempre é a disciplina favorita dos alunos. Acham aborrecida, inútil, uma perda de tempo. E nem os próprios professores ajudam muitas vezes, a maioria já envelhecidos, limitam-se a ler o manual e a por os alunos a decorar datas. História não é sobre decorar datas para depois do teste esquecer tudo, história é sobre refletir de forma critica sobre o passado, fazer um balanço das consequências das ações dos nossos antepassados, entender como certas circunstâncias levaram a certos eventos, etc... Por que é muito bonito lecionar Roma, colocar os alunos a decorarem factos soltos sem uma cronologia própria, falar vagamente sobre a sociedade romana como se ela fosse uniforme durante os seus vários séculos de existência, e depois falar de forma vaga da arquitetura. E no período seguinte fala-se da Idade Média, dá-se uma definição vaga de feudalismo, fala-se vagamente de cada rei, isso quando não são completamente ignorados e no ano letivo seguinte fala-se dos Descobrimentos. E nos testes em vez de investirem em perguntas de desenvolvimento onde o aluno seja obrigado a refletir de forma critica, dão-lhes perguntas de escolhas múltipla genéricas ou pedem para listar factos desconexos sem muita reflexão por trás. O que de certa forma, é o mais simples, já que a maioria dos alunos esta a borrifar-se para a disciplina e só querem tirar positiva. O ponto é, que assim o sistema de ensino falha em cativar os alunos e falha em transmitir a verdadeira função do ensino de historia.
Os alunos deviam aprender a refletir sobre a historia, e entender os impactos atuais das ações humanas do passado. Os alunos não deviam sair da sala de aula a saber um monte de datas e factos aleatórios sobre história, mas a saber dos impactos que a civilização romana teve na nossa sociedade, as consequências das guerras mundiais na sociedade moderna, as consequências das grandes navegações e o impacto que Portugal teve ao redor do mundo. Assim como a história é uma ferramenta poderosa, a ignorância sobre história é uma ferramenta poderosa também, e um povo ignorante é sempre conveniente para as classes dominantes. Todo o aristocrata sabe quem foi o seu tetra tetra avô, mas os meus pais mal sabem quem foi os avôs deles. Isto só reflete a falta de interesse que a população tem acerca do passado. E quem não entende o passado, não consegue entender o presente. Enquanto que em muitos países da Europa a entrada a museus e a monumentos é gratuita, em Portugal paga-se a entrada. O que transforma estas instituições em meras atrações turísticas, e não em instrumentos da conservação do passado.
O desconhecimento da história gera consequências. Gera um povo sem consciência de si, sem noção das suas raízes. Gera extremismos e idolatria por um passado idealizado. Pois, é conveniente para aqueles que estão no poder, usar a história a seu favor. Seja na criação de um passado perfeito que deve ser preservado e restaurado, seja na criação de um passado sinistro e sombrio que deve ser repudiado. Historia não é uma historinha. Não é um conto de fadas, um conto de terror, e muito menos, um conto. É útil fazer as pessoas acreditarem que história é como um filme de super heróis, onde o lado delas é o certo, e o lado oposto é o vilão. Filmes de super heróis são no cinema, e não numa sala de aula ou numa discussão sobre historia. A visão binária e superficial que as pessoas tem sobre a história, gera extremismos, gera ódio e preconceito, gera ressentimento. Apelar para o emocional das pessoas é uma ferramenta psicológica útil e muito usada por partidos políticos e por demagogos. Não é incomum ver políticos, militantes, youtubers que dizem-se historiadores, a cair nesta falácia e a contar estórias em vez de história. Até podia referir o ápice da fantasia histórica, o History Channel, que tenta passar uma imagem de ser "cientifico" com as suas estórias fantásticas que deixariam certos toxicodependentes a querer provar um bocado. Porém, prefiro deixar o History Channel para outra ocasião.
Regimes autoritários sempre procuraram usar a história como ferramenta para controlar o pensamento da população. O Estado Novo promoveu o ensino de história no país, ressaltando "figuras heroicas" como D.Afonso Henriques, Vasco da Gama, Camões, Bartolomeu Dias, etc... Um ensino mais focado em promover o passado idealizado que referi a cima, do que a veracidade histórica. O Estado Novo também será responsável por reformar castelos, ao adicionar elementos neles que não existiam na época, mas que porém, o povo associa a imagem popular de um castelo. No fundo, o Estado Novo não queria saber da veracidade histórica, mas sim, do uso do passado para controlar a população. O mesmo pode ser observado também em outros países, como a Itália de Mussolini, que verá um incremento no numero de escavações arqueológicas, com o objetivo de conectar o Reino da Itália ao Império Romano. Também vale apena referir a Alemanha sob o regime nazi, que também patrocinou a arqueologia e o estudo da história da "raça ariana". A instrumentalização da historia é frequentemente usada por aqueles que estão no poder para controlar aqueles que estão mais abaixo na hierarquia social.
Porém, também considero o oposto nocivo. Querer apagar a história e manter o povo desconexo com a mesma, ou envergonhar-se dela, também é prejudicial. O passado não foi feito por heróis nem por vilões, foi feito por pessoas, com os seus defeitos e qualidades. Portugal não é um personagem de banda desenhada para ser um "vilão" ou um "herói". Fazer com que as pessoas sintam vergonha do passado do seu país pode e irá causar radicalismos políticos. Sem falar que a tendência que muitos tem de colocar o passado para debaixo do tapete e demolir monumentos que geram desconforto como o Padrão dos Descobrimentos não vai apagar nada. Isto assim como a idealização histórica só revela ignorância e falta de uma visão critica da história. Se fossemos pelo quesito de reparação histórica, toda a Europa Ocidental teria que cobrar reparações históricas da Itália pela ocupação romana, assim como aqui na Península Ibérica teríamos que pedir reparações históricas ao norte de África pela ocupação muçulmana. Assim como os países dos Balcãs teriam direito a reparações históricas da Turquia pela ocupação otomana e o leste asiático teria direito a reparações históricas por parte do Japão pela ocupação durante a Segunda Guerra Mundial. É um discurso que parece virtuoso, porém, falacioso e que caí numa logica de dois pesos e duas medidas. Por isso é importante na analise da historia humana deixar a parte emocional de lado, e analisar de forma critica e imparcial os eventos. Apagar a história não resolve nada, e cobrar por reparações, é só um vitimismo moralista que não irá trazer de volta aqueles que pereceram.
Por isso, é importante aprender historia de forma factual e critica. Aprender historia também é um escudo protetor contra a ignorância e contra os demagogos. Saber a importância dos monumentos e por que devem ser conservados, saber todos os sacrifícios e atrocidades dos nossos antepassados, entender a importância dos eventos em si, e não somente dados e datas vazias. Ensinar historia é dar a verdade nua e crua aos alunos, sem idealismos ou moralismos por trás. Ensinar história é refletir sobre as consequências dos eventos passados no nosso quotidiano, e usar a mesma como uma ferramenta para entender o presente. Por isso é necessário aprender história na escola, para que assim não sejam repetidos os erros do passado. A história não é fácil, é uma disciplina que requer paciência, reflexão e muitas vezes deixar o lado emocional de lado.
Temos que ter consciência que estamos a estudar tempos diferentes, tempos mais violentos e com outras visões morais. Nunca houve tanta paz, tanta comida e tanta qualidade de vida como há hoje em dia, porém, seja por visões idealizadas do passado ou por desconhecimento histórico, as pessoas esquecem disso. Por isso ao estudar história, também aprendemos a dar valor ao período em que vivemos e a entender as dificuldades que o ser humano vivia no passado. A idealização do passado e acreditar que antigamente era tudo um mar de rosas é perigosa. Seja a idealização dos anos 50 e do sonho americano, seja a idealização do final do século XIX e a Belle Époque, seja a idealização do Rococó ou da Idade Média, etc... É comum encontrar gente online a cair nessas falácias, o que revela uma profunda ignorância. As pessoas esquecem de valorizar o presente cegas por uma nostalgia infundada. Há 300 anos atrás, tínhamos cá o D.João V a mandar em tudo e em todos enquanto ignorava as várias perdas humanas nas construções dos seus palácios luxuosos. Há 100 anos atrás o mundo tinha acabado de sair da Primeira Guerra Mundial, um dos conflitos mais mortíferos da historia humana. Só o facto de muitos poderem acordar sem preocupar-se com uma guerra perto das nossas fronteiras ou uma peste, é um privilegio que os nossos antepassados invejariam. Porém, o culto a um passado que não existe e uma obsessão masoquista por conflito torna as pessoas alienadas do que realmente foi o passado. Para um camponês do século XVIII, vivemos numa utopia futurista.
Por isso acho importante aprender sobre história, para aprendermos a valorizar o presente e usar o passado como ferramenta para analisarmos o presente. Para aprendermos a valorizar o presente e sobretudo para guiar as futuras gerações para serem melhores que a anterior. Antigamente, era comum os avôs contarem aos seus netos de forma didática como era o passado, o papel de um professor de história deve ser esse. A história foi e é várias vezes como arma para manipular as massas, e por isso é nosso dever dar meios a população de defender-se disso. Ensinar história não é apenas ensinar um passado longínquo, mas também ensinar o presente. Ensinar toda a trajetória, todos os degraus e todos os sacrifícios dos nossos antepassados para termos o mundo confortável atual. Entender que Roma não foi construída num dia, e preservar a memoria daqueles que a construíram. No fundo, ensinar história, é ensinar o passado, o presente, e o futuro.
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